Deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) protocola medida no Congresso Nacional para banir armadilhas adesivas, argumentando tortura animal e falhas em políticas de saneamento básico.
A comercialização das armadilhas adesivas para controle de roedores, popularmente conhecidas como "fita cola rato", pode estar com os dias contados no território nacional. A deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) apresentou um projeto de lei na Câmara dos Deputados nesta semana de abril de 2026 com o objetivo de proibir em caráter definitivo a venda do artefato. A parlamentar sustenta que o método é um instrumento de tortura animal e agrava as condições sanitárias dos ambientes urbanos, transferindo a responsabilidade do poder público na gestão de resíduos e infraestrutura para táticas cruéis e ineficazes de extermínio domiciliar.
O uso de superfícies colantes para o controle de pragas urbanas é uma prática disseminada globalmente há décadas, impulsionada pelo baixo custo e pela fácil acessibilidade em mercados e lojas de produtos agropecuários. Historicamente, a ausência de diretrizes robustas de saneamento básico em diversas regiões metropolitanas do Brasil empurrou a população para soluções paliativas e de curto prazo. Contudo, defensores dos direitos dos animais e biólogos vêm alertando sistematicamente sobre a brutalidade do método. Ao contrário de ratoeiras mecânicas de abate imediato ou venenos regulamentados, a cola atua exclusivamente pela imobilização. O roedor, ao aderir à superfície, permanece vivo, desencadeando um processo de agonia que pode perdurar por dias, evidenciando uma lacuna legislativa no que tange ao bem-estar animal no controle de espécies sinantrópicas.
Do ponto de vista biológico e veterinário, a armadilha adesiva atua provocando mortes por inanição, desidratação severa ou exaustão física. O estresse fisiológico agudo leva o animal a tentar se desvencilhar, muitas vezes causando automutilações. Paralelamente, o risco sanitário é amplificado. Durante o longo período em que permanece aprisionado, o roedor continua a excretar urina e fezes sob extremo estresse, fluídos que carregam patógenos de alta gravidade, como a bactéria causadora da leptospirose. A placa adesiva transforma-se, portanto, em um vetor estacionário de contaminação orgânica e biológica dentro do ambiente doméstico ou comercial, subvertendo totalmente sua premissa inicial de profilaxia.
A aprovação do projeto de lei acarretará mudanças significativas na dinâmica do mercado de controle de pragas no Brasil. Empresas fabricantes e distribuidoras precisarão retirar de circulação um de seus itens mais rentáveis e procurar alternativas tecnológicas alinhadas a novas exigências éticas. No espectro ecológico, a proibição mitigará os severos danos colaterais do produto, caracterizado por sua absoluta falta de seletividade. É documentado e frequente o aprisionamento acidental de aves, lagartos, cobras, filhotes de felinos e pequenos animais silvestres, que acabam sucumbindo da mesma forma angustiante. Sob a ótica social, a medida força o debate a retornar para sua origem fundamental, expondo a necessidade imperativa de investimentos massivos em macrodrenagem, coleta regular de resíduos e urbanização adequada para reduzir a proliferação de vetores.
Apesar das sólidas fundamentações éticas e sanitárias da proposta, o projeto deve enfrentar resistência no Congresso Nacional, originada em alas ligadas ao setor comercial e de varejo, além da apreensão de parte da população residente em áreas onde a infestação por roedores alcança níveis endêmicos. Comerciantes de pequeno porte argumentam que a retirada abrupta de um método barato e de fácil manuseio deixará cidadãos de baixa renda temporariamente desguarnecidos contra a invasão de ratos, que destroem alimentos e fiações elétricas. Setores técnicos ligados à dedetização ponderam que, antes do banimento total, o mercado exigiria uma fase de transição subsidiada para o acesso da população a iscas de precisão e armadilhas mecânicas modernas menos onerosas, prevenindo um surto agudo de zoonoses no hiato entre a proibição do produto e a utópica universalização do saneamento básico.
O movimento para o banimento das armadilhas de cola no Brasil reflete uma forte tendência internacional de modernização das leis de proteção da fauna, acompanhando jurisdições de países desenvolvidos que aprovaram legislações rigorosas sobre o tema recentemente. A tramitação do projeto em Brasília servirá como um termômetro rigoroso para avaliar a disposição legislativa em integrar pautas de direitos animais ao debate central de saúde pública e planejamento urbano. Especialistas do setor de biotecnologia já sinalizam que o vácuo comercial deixado pela futura proibição da fita adesiva acelerará o desenvolvimento mercadológico de métodos de controle biológico e armadilhas eletrônicas com sensores de abate instantâneo e humanitário, forçando uma evolução técnica obrigatória da indústria de controle de pragas urbanas.
Por Jardel Cassimiro
