Fundada em 2003 no distrito de Calumbi, em Paraipaba, a maior fábrica de beneficiamento de coco do Ceará reflete a resiliência de um empreendedor nordestino e molda a dinâmica do mercado agroindustrial brasileiro.
Aos seis anos de idade, o trabalho no campo e a venda porta a porta de frutas forjaram a resiliência de Raimundo Dias de Almeida, nascido em Juarez Távora, no interior da Paraíba. Essa base rudimentar de comércio sustentou uma visão de longo prazo que culminou na estruturação da maior instalação de beneficiamento de coco do estado do Ceará. O plantio do primeiro coqueiro em 1987, no distrito de Calumbi I, município de Paraipaba, deixou de ser um ato isolado de agricultura de subsistência para se tornar o marco zero de uma operação agroindustrial de escala nacional. Com a fundação da Dikoko em 2003, Almeida redefiniu a exploração da cultura do coco no Nordeste, transformando uma matéria-prima regional em um portfólio diversificado de alto valor agregado.
O cenário agrícola nordestino das décadas de 1980 e 1990 exigia extrema capacidade de adaptação frente às intempéries climáticas e à escassez de crédito para pequenos produtores. A migração dos esforços de Raimundo Dias para o Ceará representou um movimento estratégico. A região de Paraipaba, com suas condições edafoclimáticas favoráveis e potencial de irrigação, ofereceu o solo ideal para a transição de um modelo de cultivo tradicional para uma visão de agronegócio integrado. O ato de plantar a primeira muda em 1987 serviu como um laboratório a céu aberto, permitindo ao empresário dominar o ciclo biológico e comercial da planta antes de arriscar a fundação de uma planta fabril.
A transição da agricultura pura para a agroindústria exige domínio tecnológico e padronização. A fábrica construída a cerca de 10 quilômetros da sede de Paraipaba consolidou esse salto tecnológico. Inicialmente, ao lado de seu filho Bruno e outros dois parceiros comerciais, Raimundo Dias focou a operação na extração e processamento de polpa de coco congelada. O domínio dessa cadeia de frio inicial serviu como alicerce para uma esteira de produção complexa. Atualmente, o maquinário industrial da Dikoko realiza o aproveitamento integral do fruto, processando o endosperma para a extração simultânea e padronizada de coco ralado, leite de coco e óleo de coco, produtos que exigem rigorosos controles de qualidade, filtragem e envase térmico para garantir tempo de prateleira e segurança alimentar.
A instalação de uma operação fabril dessa magnitude em Calumbi I alterou a matriz econômica local. O distrito deixou de ser apenas um ponto geográfico no mapa agrícola cearense para se consolidar como um polo de escoamento e beneficiamento. A operação da Dikoko gera empregos diretos na linha de produção e dinamiza uma vasta rede de empregos indiretos, que abrange desde os colhedores no campo até a logística de transporte rodoviário de carga que distribui os produtos processados para os centros urbanos brasileiros. A fixação de renda no interior do Ceará atua como um freio ao êxodo rural, oferecendo oportunidades de qualificação técnica para a população local.
Apesar do sucesso consolidado, a cocicultura enfrenta desafios sistêmicos que exigem análise crítica. O setor lida constantemente com a flutuação dos preços das commodities agrícolas, o impacto de pragas nas lavouras e as variações nos regimes de chuvas. A inclusão da segunda geração da família no negócio, representada por seu filho Bruno, atua como um contrapeso a esses riscos, introduzindo novas perspectivas de gestão e continuidade corporativa. O modelo de sucessão familiar associado a parcerias estratégicas permite que a empresa enfrente a concorrência de produtos importados do Sudeste Asiático, mantendo a competitividade por meio da garantia de origem e da rastreabilidade da produção local.
O mercado global aponta para uma expansão contínua no consumo de derivados de coco, impulsionada pelas tendências de saudabilidade, nutrição funcional e dietas restritivas, como o veganismo. A demanda por óleo de coco prensado a frio e substitutos vegetais para laticínios coloca a infraestrutura erguida por Raimundo Dias em uma posição de vantagem estratégica. A longo prazo, a trajetória da Dikoko sinaliza que a verticalização da produção — o controle desde o plantio até a gôndola do supermercado — continuará sendo o diferencial crítico para a sobrevivência e o crescimento das empresas do agronegócio brasileiro frente às exigências de um consumidor cada vez mais atento à procedência dos alimentos.
Por Jardel Cassimiro

