A anatomia da Operação Rejeito II; os bastidores da prisão de A. C. N. e T. V. C. G., os tentáculos da mineração ilegal e a comédia mambembe do monitoramento que tentou sabotar o Estado brasileiro.
O capitalismo extrativista brasileiro guarda caprichos que nem a literatura de ficção consegue mimetizar sem parecer inverossímil. Nos gabinetes acarpetados da burocracia estatal e nas franjas litorâneas do Nordeste, a extração de minérios — atividade que evoca imagens de homens cobertos de poeira e autarquias engessadas — converteu-se, nos últimos anos, em um enredo digno de um romance de espionagem de quinta categoria, misturado com o pragmatismo cínico das grandes fraudes financeiras. Na última quinta-feira, 18 de junho de 2026, a Polícia Federal encerrou o que parecia ser a temporada de ouro desse espetáculo ao deflagrar a segunda fase da Operação Rejeito. Os protagonistas: o empresário alagoano A. C. N. e sua esposa, T. V. C. G.
O que começou como uma investigação técnica sobre fraudes na concessão de licenças ambientais para o setor de mineração revelou uma engrenagem financeira que movimentou a cifra hiperbólica de R$ 1,5 bilhão. No entanto, o que transformou o caso em um clássico instantâneo da crônica policial contemporânea não foi apenas o volume de dinheiro transacionado em contas de empresas de fachada. Foi o salto metodológico da organização criminosa: ao perceber que a linha de investigação da PF avançava sobre os seus negócios de extração, o casal decidiu que era hora de montar um serviço de inteligência paralelo. Passaram a monitorar delegados, sabotar diligências e desenhar uma rede de contraespionagem de província que, embora operasse com equipamentos de ponta, ruiu diante do peso dos próprios rastros digitais.
A Linha de Produção dos Milhões e as Contas de Passagem
A tese central que move os analistas da Polícia Federal e os procuradores da República baseia-se em uma arquitetura de fraudes documentais estruturada ao longo de quase uma década. A. C. N., apontado pelas investigações como o líder incontestável do grupo, operava no vácuo de fiscalização das agências reguladoras e dos órgãos ambientais. O esquema consistia na falsificação ideológica e na obtenção corrompida de licenças para exploração minerária, permitindo que jazidas fossem exauridas à margem da lei, sem o pagamento de royalties devidos à União e sem a execução de contrapartidas de mitigação ambiental.
A engenharia financeira desenhada para ocultar o patrimônio gerado pela mineração ilegal impressiona pela voracidade e pela velocidade dos fluxos de capital. De acordo com o relatório de inteligência financeira da PF, que balizou as ordens de prisão preventiva emitidas pela Justiça Federal, o volume total movimentado pela organização criminosa alcança a marca de R$ 1,5 bilhão.
O detalhamento das quebras de sigilo bancário aponta para uma concentração patrimonial nítida na figura de A. C. N. No recorte temporal compreendido entre dezembro de 2019 e dezembro de 2024, o empresário recebeu diretamente em suas contas correntes, e em contas de empresas diretamente sob seu controle, mais de R$ 225 milhões. O dinheiro orbitava em um carrossel de transferências eletrônicas que ligava empresas compradoras de minérios a firmas de consultoria, locação de equipamentos e terraplanagem registradas em nomes de laranjas e parentes. Era a institucionalização do subsolo transformado em liquidez absoluta.
De Mineradores a Agentes Secretos: A Operacionalização da Paranoia
Toda organização criminosa que atinge o limiar dos nove dígitos financeiros enfrenta, inexoravelmente, o dilema da segurança operacional. Quando a primeira fase da Operação Rejeito veio a público, expondo as entranhas das fraudes nas licenças, o grupo de A. C. N. não recuou; mudou de pele. Foi nesse momento que T. V. C. G. assumiu contornos de liderança estratégica no organograma delineado pelos investigadores. Enquanto A. mantinha o comando político e financeiro das empresas, T. converteu-se na coordenadora operacional de um núcleo de contrainteligência.
As apurações que culminaram na ação da última quinta-feira demonstram que a organização contratou ex-policiais, técnicos em segurança eletrônica e utilizou softwares de monitoramento de tráfego para rastrear os passos dos agentes federais encarregados do inquérito. O objetivo era mapear a rotina de delegados, antecipar a emissão de mandados de busca e apreensão e identificar potenciais delatores dentro da estrutura empresarial.
Havia um componente quase tragicômico na operação de monitoramento ilegal: os “espiões” do casal utilizavam veículos alugados em nome de empresas do próprio grupo econômico investigado para seguir viaturas descaracterizadas da PF. Em uma das ocasiões relatadas nos autos, a tentativa de sabotagem envolveu a criação de falsas denúncias anônimas enviadas às corregedorias locais para tentar afastar os investigadores da linha de frente do caso. A paranoia, financiada pelo dinheiro da mineração, transformou-se em uma operation de sabotagem aberta contra o avanço do Estado.
O Fluxo dos Recursos e o Impacto no Setor Regulado
Abaixo, a distribuição dos recursos identificados e a divisão de atribuições da liderança da organização criminosa, conforme os dados oficiais da Polícia Federal:
| Elemento do Esquema | Detalhamento Técnico e Financeiro | Impacto Operacional |
| Movimentação Global | R$ 1,5 bilhão identificados em contas vinculadas ao esquema. | Desestabilização do mercado minerário regional e evasão de divisas. |
| Aporte Direto (A. C. N.) | R$ 225 milhões recebidos entre dez/2019 e dez/2024. | Concentração de capital para financiamento da estrutura de fachada. |
| Núcleo de Espionagem | Rastreamento de investigadores, uso de “gatos” de comunicação e sabotagem. | Obstrução direta da justiça e tentativa de blindagem da liderança. |
| Coordenação de T. V. C. G. | Gestão operacional das frentes de contenção e blindagem financeira. | Continuidade do fluxo ilícito mesmo sob monitoramento judicial. |
O Contraditório e as Linhas de Defesa
O espaço para o posicionamento técnico e jurídico dos investigados permanece resguardado conforme os ritos do devido processo legal. Em notas preliminares emitidas pelas bancas de advocacia que representam A. C. N. e T. V. C. G., os defensores sustentam que as prisões preventivas são “medidas extremas e desprovidas de fundamentação contemporânea”.
A defesa técnica argumenta que os valores apontados como movimentação financeira global referem-se à atividade empresarial legítima de comercialização de minérios e agregados da construção civil, cujos impostos teriam sido devidamente recolhidos. No que tange às graves acusações de espionagem e monitoramento ilegal da Polícia Federal, os advogados afirmam que as alegações baseiam-se em interpretações errôneas de serviços de segurança corporativa privada contratados pelo casal em razão de supostas ameaças de morte recebidas por A. no interior do estado. O mérito das licenças ambientais questionadas, segundo a defesa, será amplamente debatido na esfera administrativa e judicial competente, onde pretendem provar a regularidade das operações.
Tendências Institucionais e o Futuro do Controle Minerário
A deflagração da segunda fase da Operação Rejeito consolida uma tendência observada nos tribunais superiores e na cúpula da Polícia Federal: o tratamento da macrocriminalidade ambiental com o mesmo rigor metodológico aplicado ao combate à lavagem de dinheiro de grandes cartéis. A infiltração de tecnologias de monitoramento por parte de investigados sinaliza um acirramento nos métodos de obstrução de justiça, exigindo das forças federais uma atualização constante em seus protocolos de contrainteligência.
O caso de Alagoas deixa de ser uma crônica local sobre enriquecimento rápido no setor de mineração para se tornar um leading case sobre como o poder econômico oriundo da exploração ilegal de recursos naturais tenta erguer estruturas paralelas de poder capazes de desafiar o monopólio de investigação do Estado. O labirinto de R$ 1,5 bilhão começou a ruir não pela falta de sofisticação de seus operadores, mas pela certeza arrogante de que o subsolo brasileiro poderia comprar o silêncio e o controle das instituições civis.