Operação Compliance Zero revela rombo de R$ 17 bilhões e Polícia Federal investiga se tentáculos do esquema financeiro alcançam o financiamento de atos antidemocráticos
O Sistema Financeiro Nacional atravessa seu momento de maior turbulência desde o Plano Real com a confirmação de que o Banco Central decretou, em novembro de 2025, a liquidação extrajudicial do Banco Master e de suas controladas, incluindo o Will Bank. A medida drástica, fundamentada em um desequilíbrio econômico-financeiro sem precedentes e indícios de fraudes estruturais, lançou luz sobre um esquema que a Polícia Federal estima oscilar entre R$ 12 bilhões e R$ 17 bilhões. Sob o comando da Operação Compliance Zero, investigadores agora cruzam dados para determinar se o vácuo regulatório e a liquidez artificial gerada pelo grupo serviram de substrato para a manutenção de estruturas políticas paralelas, incluindo o nebuloso rastro de financiamento dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro, embora esta última conexão ainda permaneça no campo das hipóteses sob sigilo judicial.
A queda da instituição capitaneada por Daniel Vorcaro não foi um evento isolado, mas o desfecho de uma arquitetura financeira temerária que utilizava a emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas de juros desconectadas da realidade do mercado para atrair capital. Segundo documentos técnicos que embasaram a decisão do Banco Central, o Master mantinha sua operação estribada em uma perigosa dependência de recursos provenientes do Banco de Brasília (BRB). A simbiose entre a instituição pública do Distrito Federal e o conglomerado privado envolveu tentativas frustradas de aquisição e a compra de carteiras de crédito que, segundo a Polícia Federal, eram desprovidas de lastro ou liquidez. Esse mecanismo, que utilizava empresas e pessoas interpostas para mascarar o fluxo de capital, configura, na visão de peritos criminais, uma das mais sofisticadas operações de “créditos podres” já registradas no país.
O impacto institucional transcende as planilhas contábeis e atinge o coração do poder político na capital federal. O trânsito de Vorcaro em esferas jurídicas e governamentais, somado ao protagonismo do governador Ibaneis Rocha nas negociações entre o BRB e o Master, colocou o caso sob a jurisdição do Supremo Tribunal Federal. A remessa de peças investigativas à corte máxima ocorreu após a Polícia Federal identificar diálogos e transações envolvendo autoridades com prerrogativa de foro, sugerindo que a instituição financeira poderia atuar como um braço de apoio logístico-financeiro para interesses políticos específicos. É nesse cenário de promiscuidade entre o público e o privado que a Operação Lesa Pátria encontra um novo flanco de investigação, buscando verificar se ativos drenados do sistema bancário irrigaram a logística de caravanas e acampamentos que culminaram na invasão das sedes dos Três Poderes.
Apesar da gravidade das evidências de fraude bancária, o Ministério Público e a Polícia Federal mantêm cautela extrema ao tratar do vínculo direto com o golpismo. Até o presente momento, as notas oficiais da Compliance Zero focam estritamente no dano ao erário e nos crimes contra o sistema financeiro, como a gestão fraudulenta e a apropriação indébita. Não há, nos autos tornados públicos, uma transferência direta nominal que carimbe o Banco Master como “o banco do 8 de janeiro”. Contudo, analistas de inteligência financeira argumentam que a técnica de “smurfing” — fracionamento de valores através de laranjas — e o uso de contas de passagem no Will Bank dificultam a rastreabilidade imediata, exigindo uma quebra de sigilo bancário em cascata que pode levar meses para consolidar uma prova irrefutável de financiamento à ruptura institucional.
A defesa do Banco Master e de seus executivos tem reiterado a tese de que a liquidação foi uma medida administrativa desproporcional e que as operações com o BRB seguiram ritos técnicos rigorosos. No entanto, o mercado financeiro já precifica o impacto da insolvência do grupo, enquanto setores da oposição e órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União, intensificam a fiscalização sobre as garantias oferecidas pelo BRB. A tendência é que o desdobramento da Compliance Zero funcione como uma “Delação do Fim do Mundo” para o setor bancário médio, forçando uma reavaliação dos mecanismos de governança em bancos que operam sob forte influência política. A convergência entre o crime financeiro de colarinho branco e os ataques à democracia define agora a pauta prioritária do judiciário para 2026.
