O ingresso de Lucas dos Santos Santana no Campus Sertão escancara a eficácia da Educação de Jovens e Adultos em Alagoas e rompe o ciclo histórico de exclusão acadêmica no campo.
O estado de Alagoas testemunha um marco no cenário da educação pública com a aprovação de Lucas dos Santos Santana, um ex-cortador de cana de 51 anos, para o curso de Engenharia Civil na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), no Campus Sertão. Divulgada oficialmente nesta quinta-feira pelo governo estadual, a conquista ocorre após o morador da cidade de Pariconha passar três décadas afastado do ambiente escolar. A reinserção acadêmica foi viabilizada pelas diretrizes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) aliadas ao programa “Vem Que Dá Tempo”, que forneceu o alicerce pedagógico necessário para que o ex-trabalhador rural superasse as exigências do exame de admissão federal.
A trajetória do novo universitário espelha uma realidade severa e persistente no interior do Nordeste brasileiro. Ainda na infância, a necessidade de complementar a renda familiar empurrou Lucas para fora das salas de aula e para o trabalho pesado nas lavouras e nos canaviais. Esse fenômeno de evasão escolar precoce criou um déficit educacional geracional em regiões como o Sertão de Alagoas, onde a força de trabalho juvenil foi historicamente absorvida pela agroindústria da cana-de-açúcar. O hiato de trinta anos longe dos livros representa a paralisação do desenvolvimento intelectual formal de um cidadão que, durante décadas, acreditou não possuir o capital cognitivo exigido para retornar ao sistema de ensino.
A viabilidade desse resgate acadêmico deve-se à engenharia pedagógica do programa “Vem Que Dá Tempo”, estruturado para identificar, resgatar e preparar adultos em situação de defasagem escolar. O modelo atua na modalidade EJA com metodologias de ensino acelerado que respeitam a maturidade e a bagagem de vida do aluno, enquanto preenchem as lacunas de conhecimento em disciplinas basilares como matemática e linguagens. A aprovação em Engenharia Civil, uma graduação de alta densidade em cálculo e física, demonstra que a escola estadual conseguiu aplicar um nivelamento técnico robusto. A gestora-geral da Escola Estadual de Pariconha, Bianca Pereira, atuou junto ao corpo docente como elo de retenção, garantindo que o incentivo psicológico operasse lado a lado com a entrega do conteúdo programático.
Do ponto de vista social, o impacto da aprovação reverbera instantaneamente na comunidade escolar de Pariconha, convertendo um morador local no maior ativo de marketing para as políticas de educação do estado. A declaração de Lucas, ao expressar a emoção de realizar um sonho de infância que parecia extinto, atua como um gatilho de convencimento para outros adultos que permanecem na informalidade ou no subemprego devido à falta de escolaridade. Economicamente, o estado ganha em perspectiva, pois o investimento em formação de base transforma um trabalhador braçal em um futuro engenheiro capaz de planejar e executar obras de infraestrutura no próprio sertão.
Embora a celebração do ingresso universitário seja meritória e amparada por números governamentais, o rigor jornalístico exige apontar o desafio imediato da permanência. Especialistas em educação superior alertam que o índice de evasão nos cursos de Engenharia nas universidades federais é historicamente elevado, especialmente nos ciclos básicos de cálculo. Para um estudante de 51 anos que retorna após três décadas de hiato, a transição exigirá um suporte institucional denso por parte da UFAL. Políticas de assistência estudantil, bolsas de permanência, monitorias dedicadas e flexibilidade de horários serão determinantes para garantir que a vitória na matrícula se converta, em alguns anos, na obtenção do diploma.
O caso registrado em Pariconha fortalece a tendência de envelhecimento produtivo das salas de aula universitárias brasileiras, impulsionado por um mercado de trabalho que cada vez mais rejeita a mão de obra sem qualificação técnica. A eficácia demonstrada pelo modelo alagoano aponta para uma provável expansão e refinamento do programa “Vem Que Dá Tempo”, que pode ser exportado como modelo de política pública para outros estados do consórcio Nordeste que enfrentam os resquícios do analfabetismo funcional e da evasão rural.
Por Jardel Cassimiro