Desenvolvida por pesquisadores em São Carlos, a tecnologia usa Internet das Coisas para automatizar aparelhos sem necessidade de trocar os equipamentos; sensores detectam quando a sala fica vazia e desligam a climatização automaticamente.
O desperdício de energia elétrica com aparelhos de ar-condicionado que continuam funcionando em salas, escritórios e laboratórios vazios é um dos maiores gargalos financeiros e ambientais em prédios públicos e privados no Brasil. Para tentar solucionar esse problema de forma barata e inteligente, pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, desenvolveram a plataforma Koala. O sistema, que conecta sensores e aparelhos de climatização por meio de Internet das Coisas (IoT), conseguiu reduzir o consumo de energia em 55,7% nos testes práticos realizados na universidade. O impacto e o ineditismo da tecnologia renderam à equipe o prêmio de melhor artigo científico na conferência internacional IEEE SmartIoT 2026, realizada na China.
A grande inovação do Koala, desenvolvido durante o mestrado de Lucas de Souza Marques sob a orientação do professor Júlio Cezar Estrella, está em sua capacidade de dar “cérebro” a equipamentos antigos e já instalados, sem que seja necessário quebrá-los ou trocá-los por modelos novos e caros. Por meio de pequenos dispositivos e sensores espalhados pelo ambiente, a plataforma consegue ler o comportamento humano e as condições do espaço para tomar decisões de forma totalmente automatizada e em tempo real.
Como funcionam a plataforma Koala e a Internet das Coisas no dia a dia
Na prática, a plataforma funciona como um vigia digital invisível. Os pesquisadores instalaram sensores de baixo custo nas salas que acompanham, a todo instante, variáveis como temperatura, umidade, luminosidade e o próprio consumo de energia. Esses dados são enviados sem fio para uma central inteligente que analisa o cenário: se o sensor de luminosidade detectar que as luzes de um laboratório ou de uma sala de reuniões foram apagadas no fim do expediente, por exemplo, o Koala interpreta imediatamente que o espaço ficou vazio e que não há mais necessidade de mantê-lo refrigerado.
O grande trunfo do projeto é o dispositivo que executa a ordem de desligamento ou ajuste de temperatura. Em vez de exigir uma reforma interna complexa no ar-condicionado, os pesquisadores criaram um pequeno aparelho que “imita” os sinais de um controle remoto comum, enviando comandos por infravermelho para os equipamentos que já estão na parede. Isso significa que qualquer aparelho de ar-condicionado convencional, mesmo os mais antigos que não possuem tecnologia Wi-Fi de fábrica, pode ser integrado ao sistema Koala e passar a operar de forma inteligente.
Durante os testes de campo realizados na USP, a eficiência do sistema surpreendeu. Ao monitorar dois aparelhos de climatização, a plataforma Koala fez com que o consumo mensal de energia despencasse de 101,68 kWh para apenas 45,04 kWh — uma economia real de 55,7%. O mais importante é que essa tesourada na conta de luz não sacrificou o bem-estar dos usuários: as medições mostraram que a temperatura dentro dos ambientes monitorados foi mantida de forma estável, oscilando de maneira confortável entre 23 °C e 26 °C.
Gestão à distância e os próximos passos da pesquisa.
Além de desligar os aparelhos quando não há ninguém por perto, o Koala abre as portas para uma gestão profissional e centralizada do consumo de energia de prédios inteiros. A plataforma permite que uma equipe de manutenção ou administração acompanhe o funcionamento de dezenas de aparelhos à distância, pela internet, identificando imediatamente quando um equipamento está com defeito, consumindo mais energia do que o normal ou precisando de manutenção. A atualização dos programas que rodam nos sensores também é feita totalmente de forma remota, pela rede, sem a necessidade de que um técnico vá de sala em sala.
Embora o resultado de 55,7% de economia seja animador, os pesquisadores da USP adotam um tom de cautela e destacam que esse percentual não pode ser encarado como uma regra matemática para qualquer edifício. A eficiência do Koala ainda precisa ser colocada à prova em cenários mais complexos e dinâmicos, como salas de aula com grande circulação de alunos, onde o abrir e fechar de portas e a alta carga térmica humana exigem respostas muito mais rápidas do sistema.
Mesmo com as etapas futuras de testes pela frente, a plataforma Koala já deixa uma lição clara para o mercado e para o setor público: a sustentabilidade e a economia de recursos naturais não dependem, necessariamente, de investimentos bilionários para substituir frotas inteiras de aparelhos. Em muitos casos, o caminho mais rápido e viável para o futuro está em usar a tecnologia e a inteligência para fazer com que aquilo que nós já temos passe a funcionar de forma muito melhor.
Por Jardel Cassimiro